Não sou fã da teledramaturgia nacional. Mas não precisa ser
fã pra saber o discurso impregnado nos produtos de mídia da tv aberta: novelas
com elenco 90% branco (num país de maioria negra, cerca de 53%), onde se mostra
sem caricaturizar apenas a vida de quem é rico, bonito e heterossexual. E essa
tem sido a realidade das novelas desde que comecei a acompanhar folhetins já na
infância.
Pois bem, vamos ao que interessa e falar do último beijo gay
do momento que balançou a semana: Entre as atrizes Fernanda Montenegro e
Nathália Thimberg, damas da teledramaturgia e cinema nacional (no caso de
Fernanda, até mesmo indicada ao Oscar). Tivemos já um histórico de beijos gays e boicotes
às novelas que os exibiram. Gisele Tigre e Luciana Vendramini protagonizaram o
primeiro beijo lésbico na TV brasileira (mas poucos assistiram porque foi no
SBT e esbarrou no silêncio ao tratar do tema ditadura militar. A justiça caiu
em cima) Tiveram os beijos Globais: Félix e Anjinho, Giovanna Antonelli e Taina
Muller e o da novela Império entre José
Mayer e Kleber Toledo. Todos tinham uma história de fundo para ganhar a
aceitação do público. Eram beijos limpinhos, entre gays e lésbicas sem
trejeitos, com mais história de amor do que história de casal (história de
casal tem trepada, tem briga e tudo mais). Era meio que um KY que os autores
colocavam na trama pra poder colocar essas cenas “chocantes” nas novelas.
Então, na trama Babilônia, que já começa com assassinato,
orgias e violência, resolveu colocar um beijo gay sem ter uma história
explorada, apenas um amor já consumado entre duas idosas e aí vem o chorume de
merda nos comentários da internet, com direito a fim de amizades que
sobreviveram até ao protesto (coxinhaço) de 15 de março. Podemos apontar 3
problematizações iniciais nesse beijo:
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Uma das imagens usadas no boicote à novela |
1º Beijo lésbico sem apelo sexual: Afinal, muitos héteros homofóbicos
já tiveram o desejo de ter duas mulheres
lésbicas na cama, porque só isso explicaria a enorme quantidade de filmes
eróticos com essa temática. Um beijo lésbico que não é objeto de desejo é
tratado como aberração pelos segmentos tradicionais da sociedade. Falar disso é
como falar de mamilos: exibições de peitos em público que estão ali apenas para
serem objetificados são muito bem aceitas enquanto que peitos exibidos em
protesto, ou que não estão nos moldes de
beleza, que representam algo além dos peitos, são repudiados e apedrejados.
2° Beijo entre duas idosas: A mulher só tem um momento em
que pode exercer sua libido enquanto mulher e ser aceita. Casada, com o marido
e pra procriar. E jovem. É, isso mesmo. A sociedade castra a mulher depois de
uma certa idade por motivos de menopausa e etc. Cria-se aquele mito do casal de
velhinhos que não transa mais, mas que tá junto apenas por amor. Gente, pelamord
deus, independente da sexualidade da pessoa, IDOSX TRANSA SIM! MULHER IDOSA
TRANSA, MULHER IDOSA LÉSBICA BEIJA, AMA E TRANSA! Se vc acha motivo de panelaço
duas idosas beijando só porque são idosas, to torcendo pelo seu envelhecimento
precoce.
3º Lesbofobia: Um beijo gay com uma história, em que se
conheça a conduta e a história dos gays e ele ainda q seja um pouco afeminado,
ele faça a questão de manter a “postura” e só troque carinhos com o “parceiro/companheiro”
dentro de casa, dá pra pensar no caso. Agora duas mulheres idosas que nem sei
qual é a delas, não interessa quantos anos elas se amem mas eu só vi elas agora
passando na rua merece panelaço sim. Fico pensando a mente dessa pessoa se
qualquer pessoa tipo eu, você que está lendo, seu filho ou filha beijando uma
pessoa do mesmo sexo na rua, meu bem... os casos de lesbofobia e homofobia só
aumentam. Acho que isso responde as nossas inquietações.
O beijo da novela não serviu pra mudar a mentalidade do público
mas serviu pra expor quem ele é.
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