domingo, 22 de março de 2015

Não sou fã da teledramaturgia nacional. Mas não precisa ser fã pra saber o discurso impregnado nos produtos de mídia da tv aberta: novelas com elenco 90% branco (num país de maioria negra, cerca de 53%), onde se mostra sem caricaturizar apenas a vida de quem é rico, bonito e heterossexual. E essa tem sido a realidade das novelas desde que comecei a acompanhar folhetins já na infância.

Pois bem, vamos ao que interessa e falar do último beijo gay do momento que balançou a semana: Entre as atrizes Fernanda Montenegro e Nathália Thimberg, damas da teledramaturgia e cinema nacional (no caso de Fernanda, até mesmo indicada ao Oscar).  Tivemos já um histórico de beijos gays e boicotes às novelas que os exibiram. Gisele Tigre e Luciana Vendramini protagonizaram o primeiro beijo lésbico na TV brasileira (mas poucos assistiram porque foi no SBT e esbarrou no silêncio ao tratar do tema ditadura militar. A justiça caiu em cima) Tiveram os beijos Globais:  Félix e Anjinho, Giovanna Antonelli e Taina Muller e o da novela  Império entre José Mayer e Kleber Toledo. Todos tinham uma história de fundo para ganhar a aceitação do público. Eram beijos limpinhos, entre gays e lésbicas sem trejeitos, com mais história de amor do que história de casal (história de casal tem trepada, tem briga e tudo mais). Era meio que um KY que os autores colocavam na trama pra poder colocar essas cenas “chocantes” nas novelas.

Então, na trama Babilônia, que já começa com assassinato, orgias e violência, resolveu colocar um beijo gay sem ter uma história explorada, apenas um amor já consumado entre duas idosas e aí vem o chorume de merda nos comentários da internet, com direito a fim de amizades que sobreviveram até ao protesto (coxinhaço) de 15 de março. Podemos apontar 3 problematizações iniciais nesse beijo:
Uma das imagens usadas no boicote à novela
1º Beijo lésbico sem apelo sexual: Afinal, muitos héteros homofóbicos  já tiveram o desejo de ter duas mulheres lésbicas na cama, porque só isso explicaria a enorme quantidade de filmes eróticos com essa temática. Um beijo lésbico que não é objeto de desejo é tratado como aberração pelos segmentos tradicionais da sociedade. Falar disso é como falar de mamilos: exibições de peitos em público que estão ali apenas para serem objetificados são muito bem aceitas enquanto que peitos exibidos em protesto, ou que não estão nos moldes  de beleza, que representam algo além dos peitos, são repudiados e apedrejados.

2° Beijo entre duas idosas: A mulher só tem um momento em que pode exercer sua libido enquanto mulher e ser aceita. Casada, com o marido e pra procriar. E jovem. É, isso mesmo. A sociedade castra a mulher depois de uma certa idade por motivos de menopausa e etc. Cria-se aquele mito do casal de velhinhos que não transa mais, mas que tá junto apenas por amor. Gente, pelamord deus, independente da sexualidade da pessoa, IDOSX TRANSA SIM! MULHER IDOSA TRANSA, MULHER IDOSA LÉSBICA BEIJA, AMA E TRANSA! Se vc acha motivo de panelaço duas idosas beijando só porque são idosas, to torcendo pelo seu envelhecimento precoce.

3º Lesbofobia: Um beijo gay com uma história, em que se conheça a conduta e a história dos gays e ele ainda q seja um pouco afeminado, ele faça a questão de manter a “postura” e só troque carinhos com o “parceiro/companheiro” dentro de casa, dá pra pensar no caso. Agora duas mulheres idosas que nem sei qual é a delas, não interessa quantos anos elas se amem mas eu só vi elas agora passando na rua merece panelaço sim. Fico pensando a mente dessa pessoa se qualquer pessoa tipo eu, você que está lendo, seu filho ou filha beijando uma pessoa do mesmo sexo na rua, meu bem... os casos de lesbofobia e homofobia só aumentam. Acho que isso responde as nossas inquietações.

O beijo da novela não serviu pra mudar a mentalidade do público mas serviu pra expor quem ele é.

domingo, 15 de março de 2015

Gente linda dessa terra Brasil. Não tá sendo fácil pra ninguém. Por isso, viemos através deste post tentar lançar palavras de esperança e força em vosso coração (solta o Kenny G, DJ!)

Somos negrxs, mulheres cis ou trans, homens trans, não binárixs, lésbicas, homossexuais, bissexuais, assexuais, com necessidades especiais, etc. E mesmo dentro desta sopa de letrinhas, somos únicxs, exclusivxs. Mas o sofrimento que passamos cotidianamente nos aproxima de alguma forma. Nossa dor cria uma corda que nos amarra e nos sustenta.

É difícil levantar da cama sabendo que, naquele dia, muitas pessoas serão agredidas, violentadas, assassinadas. Como é complicado ter força pra sair de casa quando você leu no dia anterior a denúncia de um assassinato, estupro, violência doméstica, capacitismo, racismo, homo, trans, lesbo, bifobia. Precisamos arrancar forças de dentro do pâncreas pra enfrentar essa sociedade escrota.

É foda. Sentimos isso todos os dias. E não queremos chegar aqui e dizer que você precisa levantar, precisa enfrentar, precisa lutar. Você não é obrigada a nada, miga. Mas você pode, se quiser, resistir. Nós também queremos pessoas que nos deem força pra brigar. E se você nos der força e a gente der força pra você? Pode acontecer!

Vamos nos fortalecer, nos emponderar. Dá vontade de se jogar na cama, nunca mais levantar. Eu tenho medo, muito medo. Eu tenho medo pra caralho de sair de casa e levar uma lâmpada na cara. Eu tenho medo que minhas amigas sejam estupradas quando voltam pra casa. Medo escorre pela minha alma. Mas o medo não consegue me paralisar, porque quando a gente junta uma cambada de gente que tem medo, conseguimos transforma-lo em uma maré de revolta. Conseguimos nos apoiar, e usar esse medo pra reagir.


Temos demandas específicas, sem dúvida. Mas podemos nos apoiar. Podemos e devemos nos ouvir. E, principalmente, nos questionar sobre as opressões que também reproduzimos. Afinal, nessa sociedade em que a discriminação é estrutural, ao mesmo tempo que sofremos, reproduzimos opressões.



Esse texto é um manifesto em favor do emponderamento, da sororidade. Enquanto houver uma de nós sendo agredidx, ofendidx e humilhadx, não estaremos livres.

domingo, 8 de março de 2015

  
  
     Em pleno século XXI depois de passado décadas e mais décadas da luta sufragista que deu início histórico -em registros popularmente conhecido nos livros- às lutas feministas, depois de queimarmos sutiãs, depois do direito ao uso do anticoncepcional, depois de estarmos cada dia e cada vez mais inseridas no mercado de trabalho, a nós mulheres ainda nos é negado o direito ao nosso corpo,ao uso e a imagem que temos que construir sobre o mesmo.

   Nesses dias que antecederam o dia internacional da mulher, me peguei pensando em algumas coisas no que refere-se ao uso do meu corpo e os espaços. Me deparei com uma situação em que ao sair na porta da sala p ir à academia, me dei conta que meus pelos das axilas estavam um pouco grandes, eu voltei para depilá-los num processo de pseudo-higienização.O que fez com que essa minha atitude chamasse a minha atenção foi o fato de que dias antes uma colega de academia tinha ido com os ‘suvacos peludos’ e eu achei um máximo, quando eu vi pensei que teria coragem de fazer o mesmo, mas não,  não tive, não tenho. No meu processo deformação e empoderamento feminista, percebi que a desconstrução dos papéis e construção de gênero vem se constituindo em relação ao respeito a liberdade ao corpo das outras, mas que por muitas vezes o meu próprio corpo e a minha imagem estão presas ainda nesse processo estético a que somos submetidas na nossa construção do imaginário do que é ‘ser feminina’. 

    E aí, partindo do meu sovaco direto p meu útero, pq to possuída! Quando falo que a gente não tem direito sequer ao nosso corpo, no quesito pelos...imagina no quesito vagina!

   Nós mulheres, somos ensinadas a usar nossa sexualidade como moeda de troca, somos treinadas a não demonstrar desejo e satisfação sexual, e isso reverbera no campo social da culpabilização...  ao sentirmos prazer e de termos necessidades sexuais, e por termos uma vida sexual ativa! (ou, ao menos tentarmos).
É bizarro, no meio de tantas coisas que ainda  temos q conquistar, ainda nos dias de hoje ficarmos batendo em um tecla que já deveria ter sido tirada do teclado. Mas o discurso culpabilizador que cai sobre as mulheres, quando a mesma exerce sua sexualidade é tão forte q, olha, dah vontade de morrer, ou matar! 

   Pensar no meu corpo e nos espaços, é ter que pensar que: se por ventura for chegar um pouco mais tarde em casa, eu não deva ir com aquela minissaia que tanto gosto, pq eu poderia legitimar o direito de um possível agressor sobre meu corpo, pq mesmo sendo a vítima, a cadeira dos réus sempre nos foi destinada.

Quando falamos do quesito aborto então, ÇOCORR DEUS, dai-me paciência! Parece que nós somos hermafroditas, temos os gametas femininos e masculinos e nos autofecundamos. Do homem é tirada toda culpa e responsabilidade do caso, ao homem é destinado o direito ao prazer, e a nós, caso venha acontecer uma gravidez indesejada, independentemente do pq (irresponsabilidade, descuido, falha do preservativo e etc) o peso de uma gravidez indesejada e a carga psicológica-social-moralista-cristã que tenta nos colocar como assassinas, caso optamos por interromper a gravidez, como se cometer tal ato já não fosse sofrível o suficiente. Afinal de contas se transamos, temos que saber que o castigo por isso pode vir... e temos q lidar com isso, caso o bofe não queria assumir sua responsabilidade. E assim nessa criminalização muitas mulheres pobres morrem juntos com seus fetos, graças aos 'protetores' da vida que pregam q 'bandido bom é bandido morto'.
Enfim mugs! 
  

  Esse post de hoje é só um post singelo diante de todas as mazelas que nos aflige, e confesso que hoje é daqueles dias que busco forças p me manter na luta.
   

A vcs todas, mulheres cis, mulheres negras, mulheres pobres, mulheres nordestinas, mulheres da américa lática, mulheres trans!  O meu mais fraterno abraço de sororidade e que Gaia e Isis nos dê forças para continuarmos seguindo derrubando os forninhos do patriarcado! 
Bjão!


domingo, 1 de março de 2015

Oi, meu nome é Caroline tenho 22 anos, sou negra, pobre e periférica.
O lugar onde eu moro é conhecido como favelinha e ninguém quer vir aqui (a não ser nas datas comemorativas quando os ricos vem fazer suas "boas ações" aos pobres miseraveis), mas porque as pessoas não querem ir onde você mora Carol?
Bem, aqui na periferia não tem asfalto e a urbanização passa bem longe, sem falar que os bandidos com e sem farda fazem daqui um deposito de corpos, mulheres são violentadas por seus maridos, as meninas que uns chamam "periguetes" outros "novinha safadinha" estão sujeitas a todo tipo de violência, inclusive uma já foi estuprada aqui no morro e toda vizinhaça escutava seus gritos de socorro.
A pouco menos de  um mês dois "travecos" como são conhecidos por aqui foram mortos ao voltar de uma festa, isso não é novidade pra gente esse foi apenas um caso que ganhou visibilidade.
Papai conta que quando veio morar aqui nem luz tinha,  apenas mato, uma linha de trem e uma lamparina que era acesa com querosene. Papai veio da Bahia com  vovó e vovô, mamãe sempre morou na baixada, só saiu de um lugar ruim para outro.
Emprego pra preto, pobre e com o ensino fundamental incompleto não tem não senhor, vai papai vender bala no trem, cloro na rua, camelo de várias coisas, catar garrafa e papelão, trabalhar nas empreiteiras de obras, se humilhar de todas as formas possíveis pra levar o alimento pra casa, apenas a realidade de mais um pobre e preto. Mamãe sempre trabalhou de empregada domestica entre um banheiro e outro, uma faxina e outra eu quando a patroa deixava ia lá ajuda-la de alguma forma, sempre fui miudinha e rápida quantos banheiros de gente rica já ajudei mamãe lavar, hoje cansada, com suas dores e marcas de tanta humilhação (varizes que correm pelas duas pernas) sua profissão agora é: Do lar.
De todas as opressões que sofria a gordofobia era a que mais me afetava o racismo nem tanto pq  eu era parda e não negra, logo eu não sofria racismo, racismo é coisa de preto, a gordofobia me afetava, me atormentava e eu recebi o delicado apelido de: toupeira de vermelho ( eu era baixinha, gorda e peituda eu amava vestido, mas mamãe não tinha dinheiro pra comprar então ganhei um lindo vestido vermelho que usava quase sempre) dizia eu em resposta as opressões: prefiro ser gorda, toupeira, jumenta a ser um macaco, da cor do petróleo igual a vocês (ser gorda era melhor que ser negra).

Sempre fui uma menina curiosa (sempre),agitada e um passo a frente de onde eu deveria estar, dizia : Vou montar minha empresa e ter muitos funcionários, quero morar em Paris. ( pobre menina periferica e sonhadora, apenas mais uma)
Oriunda de escola pública  que faltava mais professor que ia, conseguir concluir o ginásio e consegui também entrar numa escola onde talvez eu tivesse uma chance de ser "alguém na vida".
A menina até então parda, que mal sabia expressar o português direito, mas cheia de sonhos e esperanças de que a vida poderia ser diferente
Aos 15 anos de idade no Instituto de Educação Rangel Pestana a vida da menina começou a ganhar um novo sentido, embora as necessidades e os perrengues financeiros continuavam os mesmos, roupa doada, matéria comprado com muito sufoco, lanche na cantina nada tinha que esperar a hora do almoço. A vergonha de dizer de onde vinha ainda era maior,embora a  de se expressar com medo de falar errado fosse maior, mas a menina de cada pessoa roubava uma admiração e vontade.
Foi aos 16 anos que li meu primeiro livro,  fui ao cinema pela primeira vez, fui a praia, comi num restaurante, tomei ovomaltine no mc donald e aprendi que eu podia ser mais do que apenas mais uma menina da favela que engravidaria, juntaria os panos pra morar num barraco.
Lá no instituto conheci uma flor, uma pessoa com alma de anjo e toda paciência do mundo pra menina que tinha o  apelido de "pobre" ( pq diziam as amigas não saber se comportar nos lugares), com ela aprendi tantas coisas, aprendi a ser mais humana e tirar todas as armaduras e amarguras que precisei usar contra o mundo. Obrigada Chris!  
Descobri um pré vestibular comunitário,  descobri que podia fazer faculdade, mas como nunca tive exemplos, na comunidade,em  casa ou nos meios de comunicação de pessoas (pardas) igual a mim fazendo uma faculdade fiquei meio desconfiada, mas depois de tanta conversa uma amiga me convenceu.
Fui nesse tal de Pré vestibular social, fui selecionada e estudei de janeiro até novembro, pois papai ficou desempregado e não tinha mais dinheiro pra bancar a passagem. Mas alí também conheci uma alma
Doce que nos ajudava sempre, mais uma anjinha.
Quando recebi a noticia de que eu havia passado pra UERJ eu só conseguia chorar, estava com a Chris e ela me deu um abraço tão lindo que se eu fechar o olho ainda posso sentir, a expressão era de: Dever cumprido.
Chorei, mamãe chorou, papai e irmãos. Primeira da família a cursar uma universidade pública.
Cheguei  em Caxias o campus onde fui aprovada e meu coração explodia de alegria, nunca me.senti tão orgulhosa de mim mesma, a ficha caiu.
Comecei a trabalhar pra bancar as despesas universitária, jornada tripla, saindo de casa no escuro e voltando nele, quantas vezes desistir era o eu queria.
Fiz amigos, sai pela primeira vez do Rj e conheci pessoas que me ensinaram que toda a minha história, todas as dores e humilhaçao dos meus pais, avos, vizinhos e familiares não eram culpa nossa pq não nos esforçamos para "vencer na vida".
Me reconheci negra aos 20 anos de idade, entendi as opressões que me mantiam presas, me livrei delas,  me livrei do seu peso.
Cortei a química do cabelo, mas o corte não foi só externo, a raiz estava por dentro, apertando cada órgão do meu corpo, tapando meus olhos, me fazendo achar que a culpa de tudo era minha por ter nascido preta e que eu deveria fazer por merecer.

Ainda moro na favela,  que ninguém quer chegar, ainda  sofro as opressões por ser mulher, gorda e preta, ainda sou pobre, ainda sou periferica, mas com uma diferença: O racismo, o machismo, o elitismo, o classismo  não ditam regras sobre a minha mente.
Eu MULHER PRETA E PERIFÉRICA   resisto todos os dias. Por nós, pelas outras e por mim e cheguei no Vulva em 2015 para somar, para debater e refletir sobre os diversos assusntos que perpassam em nossa sociedade!
Um grande beijooooooo !!

sábado, 28 de fevereiro de 2015