terça-feira, 31 de março de 2015


A pouco lendo um artigo da Pesquisadora Djamila Ribeiro sobre o feminismo negro me veio uma reflexão do quanto é foda ser mulher e negra nesse país, para  conseguimos chegar onde estamos foi  preciso  gritar muito, mesmo sem ser ouvida (pelos senhores da casa grande e pelas senhoras também) nós não desistimos como diz Audre Lorde em um dos seus artigos” O que houve na minha  voz  é fúria, não sofrimento. Raiva, não autoridade.”

Resistimos por muitos anos a subalternidade e hoje insurgimos  e resistimos à solidão, aos ataques diários  de  todo tempo ter que estar provando nossa capacidade para que nosso discurso e nossa fala seja legitimada, pelo direito aos estudos e acima de tudo pelo direito a vida e  a saúde, pois do pré-natal ao parto, mulheres grávidas negras e pardas permanecem em situação desfavorável quando comparadas às brancas recebendo 21% a menos de anestesia na hora do parto.
Sojourner Truth , ex escrava que tornou-se oradora, fez seu famoso discurso intitulado “E eu não sou uma mulher?” na Convenção dos Direitos das Mulheres em Ohio, em 1851 onde ela questionou:
“Aquele homem ali diz que é preciso ajudar as mulheres a subir numa carruagem, é preciso carregar elas quando atravessam um lamaçal e elas devem ocupar sempre os melhores lugares. Nunca ninguém me ajuda a subir numa carruagem, a passar por cima da lama ou me cede o melhor lugar! E não sou uma mulher? Olhem para mim! Olhem para meu braço! Eu capinei, eu plantei, juntei palha nos celeiros e homem nenhum conseguiu me superar! E não sou uma mulher? Eu consegui trabalhar e comer tanto quanto um homem – quando tinha o que comer – e também agüentei as chicotadas! E não sou uma mulher? Pari cinco filhos e a maioria deles foi vendida como escravos. Quando manifestei minha dor de mãe, ninguém, a não ser Jesus, me ouviu! E não sou uma mulher?” 


Enquanto mulheres brancas lutavam pelo direito de votar, trabalhar, nós mulheres negras lutávamos pelo direito de minimamente sermos consideradas seres humanos, pois por muitos nem pessoas éramos consideradas.  Vivemos num país onde de acordo com  IBGE (2000) somos 169, 5 milhões de brasileiros, dos quais 50,79% são do sexo feminino. Deste percentual, 44% são mulheres negras e pardas, porém enquanto   90% das mulheres brancas são alfabetizadas apenas 78% das mulheres negras tem esse mesmo direito, a população negra, independente do sexo, recebe 50% menos que a não negra  quando se inclui o recorte gênero a situação fica ainda mais alarmante, ainda segundo fontes do IBGE da década de 90, 23% da população negra(entre pretas e pardas) economicamente ativa, estão no emprego doméstico. Já na população branca este percentual é de 6,1%.
A nossa luta por estar nos espaços acontece diariamente durante décadas, nossa jornada  quanto mulheres trabalhadoras , mães, periféricas, lésbicas, trans... não é recente, mas muitas feministas consideram birra, egoísmo e individualismo quando nós feministas negras exigimos o recorte de raça e classe dentro dos espaços, quando exigimos espaços de fala , respeito a nossas pautas e um olhar mais atento a nossas demandas, essa reação negativa não é algo novo Audre  a muito chamou a atenção de feministas brancas usarem apenas do binarismo homem x mulher e o fato dessa analise ser totalmente simplista fazendo necessário o recorte de raça e classe.
Nós mulheres negras durante anos lutamos para ser ouvidas e faremos isso nem que seja no grito!

MATERIAL DE APOIO:
 
·         http://www.institutobuzios.org.br/documentos/MULHER%20NEGRA%20DADOS%20ESTATISTICOS.pdf
·         http://www.geledes.org.br/quem-tem-medo-do-feminismo-negro/#axzz3VxpukgKL
·         http://cultura.estadao.com.br/noticias/geral,pretas-recebem-menos-anestesia-imp-,703837
·         https://we.riseup.net/assets/171382/AUDRE%20LORDE%20COLETANEA-bklt.pdf
Reações:

1 comentários:

Bruna disse...

Obrigada por fazer ecoar nossa voz assim tão lindamente, Carol ♡