domingo, 1 de março de 2015

Oi, meu nome é Caroline tenho 22 anos, sou negra, pobre e periférica.
O lugar onde eu moro é conhecido como favelinha e ninguém quer vir aqui (a não ser nas datas comemorativas quando os ricos vem fazer suas "boas ações" aos pobres miseraveis), mas porque as pessoas não querem ir onde você mora Carol?
Bem, aqui na periferia não tem asfalto e a urbanização passa bem longe, sem falar que os bandidos com e sem farda fazem daqui um deposito de corpos, mulheres são violentadas por seus maridos, as meninas que uns chamam "periguetes" outros "novinha safadinha" estão sujeitas a todo tipo de violência, inclusive uma já foi estuprada aqui no morro e toda vizinhaça escutava seus gritos de socorro.
A pouco menos de  um mês dois "travecos" como são conhecidos por aqui foram mortos ao voltar de uma festa, isso não é novidade pra gente esse foi apenas um caso que ganhou visibilidade.
Papai conta que quando veio morar aqui nem luz tinha,  apenas mato, uma linha de trem e uma lamparina que era acesa com querosene. Papai veio da Bahia com  vovó e vovô, mamãe sempre morou na baixada, só saiu de um lugar ruim para outro.
Emprego pra preto, pobre e com o ensino fundamental incompleto não tem não senhor, vai papai vender bala no trem, cloro na rua, camelo de várias coisas, catar garrafa e papelão, trabalhar nas empreiteiras de obras, se humilhar de todas as formas possíveis pra levar o alimento pra casa, apenas a realidade de mais um pobre e preto. Mamãe sempre trabalhou de empregada domestica entre um banheiro e outro, uma faxina e outra eu quando a patroa deixava ia lá ajuda-la de alguma forma, sempre fui miudinha e rápida quantos banheiros de gente rica já ajudei mamãe lavar, hoje cansada, com suas dores e marcas de tanta humilhação (varizes que correm pelas duas pernas) sua profissão agora é: Do lar.
De todas as opressões que sofria a gordofobia era a que mais me afetava o racismo nem tanto pq  eu era parda e não negra, logo eu não sofria racismo, racismo é coisa de preto, a gordofobia me afetava, me atormentava e eu recebi o delicado apelido de: toupeira de vermelho ( eu era baixinha, gorda e peituda eu amava vestido, mas mamãe não tinha dinheiro pra comprar então ganhei um lindo vestido vermelho que usava quase sempre) dizia eu em resposta as opressões: prefiro ser gorda, toupeira, jumenta a ser um macaco, da cor do petróleo igual a vocês (ser gorda era melhor que ser negra).

Sempre fui uma menina curiosa (sempre),agitada e um passo a frente de onde eu deveria estar, dizia : Vou montar minha empresa e ter muitos funcionários, quero morar em Paris. ( pobre menina periferica e sonhadora, apenas mais uma)
Oriunda de escola pública  que faltava mais professor que ia, conseguir concluir o ginásio e consegui também entrar numa escola onde talvez eu tivesse uma chance de ser "alguém na vida".
A menina até então parda, que mal sabia expressar o português direito, mas cheia de sonhos e esperanças de que a vida poderia ser diferente
Aos 15 anos de idade no Instituto de Educação Rangel Pestana a vida da menina começou a ganhar um novo sentido, embora as necessidades e os perrengues financeiros continuavam os mesmos, roupa doada, matéria comprado com muito sufoco, lanche na cantina nada tinha que esperar a hora do almoço. A vergonha de dizer de onde vinha ainda era maior,embora a  de se expressar com medo de falar errado fosse maior, mas a menina de cada pessoa roubava uma admiração e vontade.
Foi aos 16 anos que li meu primeiro livro,  fui ao cinema pela primeira vez, fui a praia, comi num restaurante, tomei ovomaltine no mc donald e aprendi que eu podia ser mais do que apenas mais uma menina da favela que engravidaria, juntaria os panos pra morar num barraco.
Lá no instituto conheci uma flor, uma pessoa com alma de anjo e toda paciência do mundo pra menina que tinha o  apelido de "pobre" ( pq diziam as amigas não saber se comportar nos lugares), com ela aprendi tantas coisas, aprendi a ser mais humana e tirar todas as armaduras e amarguras que precisei usar contra o mundo. Obrigada Chris!  
Descobri um pré vestibular comunitário,  descobri que podia fazer faculdade, mas como nunca tive exemplos, na comunidade,em  casa ou nos meios de comunicação de pessoas (pardas) igual a mim fazendo uma faculdade fiquei meio desconfiada, mas depois de tanta conversa uma amiga me convenceu.
Fui nesse tal de Pré vestibular social, fui selecionada e estudei de janeiro até novembro, pois papai ficou desempregado e não tinha mais dinheiro pra bancar a passagem. Mas alí também conheci uma alma
Doce que nos ajudava sempre, mais uma anjinha.
Quando recebi a noticia de que eu havia passado pra UERJ eu só conseguia chorar, estava com a Chris e ela me deu um abraço tão lindo que se eu fechar o olho ainda posso sentir, a expressão era de: Dever cumprido.
Chorei, mamãe chorou, papai e irmãos. Primeira da família a cursar uma universidade pública.
Cheguei  em Caxias o campus onde fui aprovada e meu coração explodia de alegria, nunca me.senti tão orgulhosa de mim mesma, a ficha caiu.
Comecei a trabalhar pra bancar as despesas universitária, jornada tripla, saindo de casa no escuro e voltando nele, quantas vezes desistir era o eu queria.
Fiz amigos, sai pela primeira vez do Rj e conheci pessoas que me ensinaram que toda a minha história, todas as dores e humilhaçao dos meus pais, avos, vizinhos e familiares não eram culpa nossa pq não nos esforçamos para "vencer na vida".
Me reconheci negra aos 20 anos de idade, entendi as opressões que me mantiam presas, me livrei delas,  me livrei do seu peso.
Cortei a química do cabelo, mas o corte não foi só externo, a raiz estava por dentro, apertando cada órgão do meu corpo, tapando meus olhos, me fazendo achar que a culpa de tudo era minha por ter nascido preta e que eu deveria fazer por merecer.

Ainda moro na favela,  que ninguém quer chegar, ainda  sofro as opressões por ser mulher, gorda e preta, ainda sou pobre, ainda sou periferica, mas com uma diferença: O racismo, o machismo, o elitismo, o classismo  não ditam regras sobre a minha mente.
Eu MULHER PRETA E PERIFÉRICA   resisto todos os dias. Por nós, pelas outras e por mim e cheguei no Vulva em 2015 para somar, para debater e refletir sobre os diversos assusntos que perpassam em nossa sociedade!
Um grande beijooooooo !!

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